Pular para o conteúdo principal

Revolução não tem Copyright

A palavra "revolução" anda sendo usada com uma facilidade impressionante.

Historicamente, revoluções compartilham algumas características. A primeira é a capacidade de provocar mudanças profundas nas estruturas sociais, culturais ou políticas. A segunda é seu caráter popular. Revoluções não costumam nascer no topo da pirâmide; elas emergem da base, ganham adesão coletiva e, só então, transformam sistemas inteiros.

Nesse sentido, vale questionar: as IAs generativas representam realmente uma revolução?

Tenho minhas dúvidas.

O discurso de mercado diz que sim. A cada semana surge uma nova plataforma prometendo reinventar a forma como trabalhamos, criamos ou nos relacionamos com a tecnologia. Hoje é uma ferramenta, amanhã é outra. Os nomes mudam, mas a promessa permanece a mesma: estamos diante de uma revolução.

O texto publicitário é sedutor. O léxico é cuidadosamente construído para transmitir urgência e inevitabilidade. Parece que quem não aderir imediatamente ficará para trás.

Mas revoluções não costumam ter dono.

Revoluções não tem Copyright. Não possuem plano de assinatura. Não dependem de rodadas sucessivas de investimento para continuar existindo.

O mercado de IA generativa certamente é inovador. Mas, acima de tudo, é um mercado extremamente lucrativo. E talvez essa seja a questão central.

A corrida atual parece menos orientada pela transformação social e mais pela disputa de liderança entre grandes empresas de tecnologia. O objetivo não é necessariamente mudar estruturas de poder, mas consolidá-las.

Por isso alguns especialistas já começam a discutir a possibilidade de uma bolha. O entusiasmo em torno das IAs generativas, em muitos casos, parece crescer mais rápido do que a compreensão de suas reais capacidades e limitações.

Até agora, a velocidade dos investimentos supera a velocidade da adoção efetiva dessas tecnologias em modelos de negócio sustentáveis. E o mercado financeiro possui uma característica conhecida: ele chega rápido, mas também sai rápido quando percebe que as expectativas foram maiores do que os resultados.

Isso nos leva a uma pergunta interessante.

Até quando um modelo de negócios baseado na promessa constante da próxima grande revolução conseguirá se sustentar?

Porque investidores não financiam expectativas para sempre. Em algum momento, a narrativa precisa se converter em resultados concretos.

Talvez as IAs generativas transformem profundamente a sociedade. Talvez não.

Mas uma coisa parece certa: quando tudo é chamado de revolução, a palavra perde seu significado.

E existe uma distância enorme entre uma revolução e uma simples campanha de marketing.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Café com leite... de coco

Há quase um ano eu mudei radicalmente meus hábitos alimentares. Cortei de vez a carne do cardápio. Sério. Motivado por princípios ideológicos e biológicos não como mais nenhuma carne, nem vermelha nem branca. Não me tornei vegan, virei vegetariano. Pra quem não sabe a diferença: uma pessoa vegan (ou vegano) não consome nada de origem animal, nada mesmo, não só na questão alimentícia mas até no vestuário. Não usa roupas de couro, não usa cosméticos testados em animais, não come leite e derivados, etc. O vegetariano pode consumir leite e derivados, mel, ovo. No meu caso, fiquei com a segunda opção. Mas a mudança de hábito começou bem antes de eu cortar as carnes, pelo menos uns seis meses antes. Desenvolvi uma intolerância a lactose. É, eu sei, é triste. Imagine não poder comer queijos, leite condensado, creme de leite... doce de leite!! Mas por questão de força maior foi preciso abandonar essas coisas tão boas. Junto com essa intolerância veio uma leve gastrite (muito mais ne...

O logo da Copa de 2026 não é preguiçoso. É cauteloso.

  Desde que a identidade visual da Copa do Mundo de 2026 foi lançada, ouvi muitas críticas ao projeto. A mais comum delas foi: preguiçoso. E, à primeira vista, eu entendo a reação. Afinal, o logo é composto basicamente pelos números do ano, a imagem da taça e a assinatura institucional da FIFA. Visualmente, ele parece simples demais para um evento da dimensão de uma Copa do Mundo. Mas eu não acho que o problema seja preguiça. Acho que é falta de ousadia. Ou, talvez, excesso de cautela. Vale lembrar o tamanho do desafio. Pela primeira vez, uma Copa do Mundo acontece em três países-sede: Estados Unidos, México e Canadá. Três culturas diferentes. Três histórias diferentes. Três identidades visuais diferentes. Um briefing complexo. Mas também uma oportunidade extraordinária. Três países. Três culturas. Três identidades visuais. Poucas vezes um logo de Copa recebeu um desafio tão complexo.   A identidade visual poderia explorar contrastes culturais, linguísticos e estéticos. Poderi...

100% REPRESENTATIVIDADE

Dois eventos recentes são os motivadores desse texto. O primeiro foi o lançamento do filme Pantera Negra nos cinemas, o segundo foi o “discurso” do apresentador do reality show BBB Tiago Leifert. Quando Pantera Negra foi lançado muitos entenderam e louvaram a relação direta entre um protagonista negro de um filme de super-herói e a representatividade. Mas o que chamou a atenção foi a imediata chuva de discursos e piadinhas tentando tirar a legitimidade dessa representatividade. Quando uma participante de um reality show saiu do programa, o apresentador irresponsável fez um discurso em rede nacional recheado de bobagens onde uma frase me chamou muito a atenção “A representatividade não leva a nada”. A irresponsabilidade de dizer uma frase dessa em rede nacional na maior emissora de televisão do país não tem justificativa, em nenhum contexto. Porque a representatividade importa tanto? Essa pergunta não deveria nem existir. A partir do momento que tu entende o que é a...