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O logo da Copa de 2026 não é preguiçoso. É cauteloso.

  Desde que a identidade visual da Copa do Mundo de 2026 foi lançada, ouvi muitas críticas ao projeto. A mais comum delas foi: preguiçoso. E, à primeira vista, eu entendo a reação. Afinal, o logo é composto basicamente pelos números do ano, a imagem da taça e a assinatura institucional da FIFA. Visualmente, ele parece simples demais para um evento da dimensão de uma Copa do Mundo. Mas eu não acho que o problema seja preguiça. Acho que é falta de ousadia. Ou, talvez, excesso de cautela. Vale lembrar o tamanho do desafio. Pela primeira vez, uma Copa do Mundo acontece em três países-sede: Estados Unidos, México e Canadá. Três culturas diferentes. Três histórias diferentes. Três identidades visuais diferentes. Um briefing complexo. Mas também uma oportunidade extraordinária. Três países. Três culturas. Três identidades visuais. Poucas vezes um logo de Copa recebeu um desafio tão complexo.   A identidade visual poderia explorar contrastes culturais, linguísticos e estéticos. Poderi...
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De onde vem a inspiração?

  Quem trabalha com criação convive diariamente com um desafio curioso: preencher uma página em branco. No design, na publicidade, no audiovisual ou em qualquer outra atividade criativa, o processo costuma começar da mesma forma. Uma tela vazia. Um documento em branco. Já vi compararem esse trabalho ao mito de Sísifo. Empurramos uma pedra montanha acima para, no dia seguinte, encontrarmos outra montanha esperando por nós. Piadas de agência à parte, existe uma verdade nessa comparação. O trabalho criativo exige um estado permanente de atenção. Criar não é apenas produzir. É observar. No início da carreira isso costuma ser difícil. A impressão é que algumas pessoas nasceram inspiradas e outras não. Mas, com o tempo, a gente descobre que inspiração não é um dom. Ela é um método. Durante muito tempo construímos uma imagem quase mística da inspiração. Como se as boas ideias surgissem por intervenção divina ou por algum tipo de iluminação repentina. A prática ensina outra coisa. A inspir...

O Affinity é o CorelDRAW que o CorelDRAW queria ser

Quando cheguei por aqui, nem tudo era mato, mas ainda havia bastante terreno para explorar. Como quase todo profissional da área criativa dos anos 1990 e 2000, passei por uma infinidade de softwares. QuarkXPress, PageMaker, FreeHand, Flash, Fireworks e vários outros da antiga Macromedia fizeram parte da minha formação. Mas havia um nome que ocupava um lugar especial nas agências e departamentos de arte: o CorelDRAW. Originalmente, o CorelDRAW nasceu como um software de desenho vetorial. No entanto, ao longo do tempo, decisões de mercado e demandas dos usuários fizeram com que novas funcionalidades fossem sendo incorporadas ao programa. Aos poucos, ele deixou de ser apenas uma ferramenta de ilustração e passou a flertar com edição de imagens, diagramação e outras atividades. A ideia era ambiciosa. Concentrar em um único software tarefas que normalmente exigiam programas diferentes. O problema é que a tecnologia da época não acompanhava essa ambição. Existe uma velha piada entre designer...

Revolução não tem Copyright

A palavra "revolução" anda sendo usada com uma facilidade impressionante. Historicamente, revoluções compartilham algumas características. A primeira é a capacidade de provocar mudanças profundas nas estruturas sociais, culturais ou políticas. A segunda é seu caráter popular. Revoluções não costumam nascer no topo da pirâmide; elas emergem da base, ganham adesão coletiva e, só então, transformam sistemas inteiros. Nesse sentido, vale questionar: as IAs generativas representam realmente uma revolução? Tenho minhas dúvidas. O discurso de mercado diz que sim. A cada semana surge uma nova plataforma prometendo reinventar a forma como trabalhamos, criamos ou nos relacionamos com a tecnologia. Hoje é uma ferramenta, amanhã é outra. Os nomes mudam, mas a promessa permanece a mesma: estamos diante de uma revolução. O texto publicitário é sedutor. O léxico é cuidadosamente construído para transmitir urgência e inevitabilidade. Parece que quem não aderir imediatamente ficará para ...

Não, criatividade não virou commodity

Estou desatualizado do resto do mundo, mas aqui no Brasil a publicidade parece atravessar uma crise criativa. Puxe pela memória a última campanha que marcou você por um jingle memorável, uma redação brilhante, um mote poderoso ou simplesmente um trocadilho daqueles que grudam na cabeça. Dou 30 segundos. Difícil, não é? E antes que alguém culpe a IA generativa, não, ela não é responsável por essa crise. Talvez tenha participação em uma crise estética, mas essa é uma conversa para outro texto. O que parece estar cada vez mais raro é o conceito publicitário bem construído. A ideia capaz de despertar emoções, criar associações, gerar lembrança e construir valor para uma marca. Um texto (escrito ou imagético) que não apenas apareça diante do consumidor, mas que permaneça com ele. Parte dessa percepção talvez venha de uma mudança na própria lógica do mercado. A máxima de que o sucesso de uma campanha depende mais do plano de mídia do que da criação acabou se consolidando como verdade op...

100% REPRESENTATIVIDADE

Dois eventos recentes são os motivadores desse texto. O primeiro foi o lançamento do filme Pantera Negra nos cinemas, o segundo foi o “discurso” do apresentador do reality show BBB Tiago Leifert. Quando Pantera Negra foi lançado muitos entenderam e louvaram a relação direta entre um protagonista negro de um filme de super-herói e a representatividade. Mas o que chamou a atenção foi a imediata chuva de discursos e piadinhas tentando tirar a legitimidade dessa representatividade. Quando uma participante de um reality show saiu do programa, o apresentador irresponsável fez um discurso em rede nacional recheado de bobagens onde uma frase me chamou muito a atenção “A representatividade não leva a nada”. A irresponsabilidade de dizer uma frase dessa em rede nacional na maior emissora de televisão do país não tem justificativa, em nenhum contexto. Porque a representatividade importa tanto? Essa pergunta não deveria nem existir. A partir do momento que tu entende o que é a...

O trabalho do designer é profissional, mesmo que o mercado seja amador

O design gráfico nasce no capitalismo. A revolução industrial, a produção em série e a criação de mercados consumidores, fez nascer a necessidade do design gráfico. O design gráfico só existe porque a sociedade consumidora se desenvolveu nos países industrializados. Nosso papel como designer é deixar vivo o capitalismo. Manter a chama do mercado sempre acesa. Por isso que o design gráfico é um indicador de desenvolvimento econômico de uma sociedade. Essa ideia não é nenhuma novidade. Fábio Mestriner, no livro "Design de embalagem", fala a mesma coisa, mas referindo-se só ao design de embalagem, "A embalagem hoje é um importante componente da atividade econômica dos países industrializados, em que o consumo deste item é utilizado como um dos parâmetros para aferir o nível de atividade da economia." (2002). Depois que alguém explica, a coisa fica óbvia. Se o design é um instrumento de desenvolvimento do capitalismo, quanto mais design existe numa sociedade capita...