Quando cheguei por aqui, nem tudo era mato, mas ainda havia bastante terreno para explorar.
Como quase todo profissional da área criativa dos anos 1990 e 2000, passei por uma infinidade de softwares. QuarkXPress, PageMaker, FreeHand, Flash, Fireworks e vários outros da antiga Macromedia fizeram parte da minha formação.
Mas havia um nome que ocupava um lugar especial nas agências e departamentos de arte: o CorelDRAW.
Originalmente, o CorelDRAW nasceu como um software de desenho vetorial. No entanto, ao longo do tempo, decisões de mercado e demandas dos usuários fizeram com que novas funcionalidades fossem sendo incorporadas ao programa. Aos poucos, ele deixou de ser apenas uma ferramenta de ilustração e passou a flertar com edição de imagens, diagramação e outras atividades.
A ideia era ambiciosa. Concentrar em um único software tarefas que normalmente exigiam programas diferentes.
O problema é que a tecnologia da época não acompanhava essa ambição.
Existe uma velha piada entre designers que compara o CorelDRAW a um pato. O pato voa, nada e corre. Faz tudo. Mas é ruim em tudo.
Por muito tempo, essa também foi a fama do CorelDRAW.
A tentativa de ser uma plataforma única acabou esbarrando nas limitações dos computadores da época. Processadores lentos, pouca memória e sistemas operacionais menos eficientes transformavam a experiência em algo frequentemente frustrante.
Enquanto isso, no início dos anos 2000, a Adobe apresentava um caminho diferente.
Com a Creative Suite, a empresa consolidou um fluxo de trabalho baseado na especialização. Cada software tinha uma função específica: Photoshop para imagens, Illustrator para vetores, InDesign para diagramação. Juntos, funcionavam como uma linha de produção integrada.
A proposta fez sucesso. E a combinação entre a força da Adobe e a má reputação acumulada pelo CorelDRAW acabou mudando o mercado.
Mas eis a ironia.
Em 2026, a ideia original do CorelDRAW finalmente parece ter encontrado seu momento.
O Affinity Designer — hoje integrado ao ecossistema da Canva — permite trabalhar vetores, imagens bitmap e exportação dentro da mesma interface. O próprio software organiza essas funções em áreas chamadas "personas", que alternam o conjunto de ferramentas sem exigir a troca de programa ou de arquivo.
E funciona surpreendentemente bem.
Não porque a ideia seja nova.
Muito pelo contrário.
A sensação é justamente a de estar vendo uma visão antiga finalmente se concretizar.
Talvez o Affinity não seja a prova de que o CorelDRAW estava errado.
Talvez seja a prova de que ele estava adiantado.
Existe uma tendência de associar inovação apenas ao sucesso. Mas a história da tecnologia está cheia de boas ideias que fracassaram porque surgiram antes da infraestrutura necessária para sustentá-las.
Nesse sentido, o Affinity Designer me parece menos uma ruptura e mais uma confirmação.
A confirmação de que algumas ideias não falham por serem ruins. Elas apenas chegam cedo demais.

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