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O beijo gay, a bicicleta e o brasileiro médio

Beijo gay das personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg 


O brasileiro não sabe o que é direito.

Tá, não vou ser tão radical assim... O brasileiro tem uma visão distorcida do que é direito.

Não, ainda está generalizando demais... O brasileiro médio tem uma definição deturpada do que é direito.

Acho que é isso.

Quando eu falo brasileiro médio, não estou falando em classe social. O brasileiro médio é aquele que tem argumentos que não vão além do próprio umbigo, e pra isso, pouco importa a classe social ou a situação financeira. Também não estou falando do Direito (com letra maiúscula) que é a definição da ciência do direito, esse campo o brasileiro conhece muito bem, afinal, de um tempo pra cá, cada vez mais o Direito está acessível a todos. Eu falo do direito, aquele que é primo-irmão do dever na nossa constituição. Falo da faculdade de uma pessoa mover a ordem jurídica pelo seus interesses. Essa última definição ainda é muito obscura na cabeça do brasileiro médio.

A democracia no Brasil nunca foi adulta, ela já morreu várias vezes na nossa história e sempre morreu jovem. Quando ela renascia era sempre na figura de uma criança frágil, que precisava ser cuidada para crescer forte e saudável, o problema é que na maioria das vezes mandaram a democracia, ainda adolescente, para o exílio. Se o brasileiro não é íntimo nem da noção de democracia, imagine do direito.

Foi assim desde o embrião do nosso país. Quando a Família real veio fugida para o Brasil, aqui já não existia democracia nenhuma. A última coisa que um Estado escravocrata poderia ser, era democrata. No entanto a mudança da família real e de toda a corte portuguesa foi de verdade o início desse sentido deturpado de democracia e do direito. A figura da nobreza no Brasil, fez com que uma nova classe entrasse na dinâmica social existente. A família Real exigiu privilégios que eram inerentes à nobreza. A partir daí a noção de direito para o brasileiro passou a ser atrelado a uma classe social. A nobreza tinha mais direitos que o resto da população, garantidos principalmente pela herança de sangue.

O problema é que nesse meio tempo, a família real percebeu que cá, diferente de lá, além de sangue azul, era preciso ter riqueza, e as posses principais dos nobres e fidalgos tinham ficado lá do outro lado do atlântico, largados as pressas. A solução mais fácil para a corte portuguesa foi vender títulos de nobreza. Assim ganhavam todos os cidadãos, quem tinha sangue azul conseguia manter seus privilégios, e quem tinha o dinheiro ascendia socialmente ganhando novos direitos. O resto da população não entra nessa equação, afinal, não tinham direito a nada, não eram cidadãos.

A noção do direito acabou mudando, agora no Brasil, para ter privilégios bastava ter dinheiro, pouco importava se seu sangue era azul, vermelho ou de barata. Nesse contexto, a situação ficou insustentável para a nobreza, mesmo barganhando com os donos do dinheiro e berrando às margens do Ipiranga, não teve jeito, tomaram um belo e merecido chute na bunda.

Os republicanos assumiram o poder, quer dizer, só mudaram o nome do jogo, afinal eles já mandavam no país, bem antes de qualquer proclamação. Foi uma transição pacífica, pra quer brigar num jogo de cartas marcadas? Ou seja, todo o status quo do império continuou existindo, não houve nenhuma mudança social significativa com a proclamação da república brasileira.

No meio de toda a herança social do império veio a noção deturpada do direito. O povo brasileiro passou a entender direito como privilégio, e privilégio não é pra todo mundo, o direito é. Essa noção deturpada se entranhou em todos as classes sociais, independente de que tem posse, ou de quem é possuído.

Seja rico, classe-média ou pobre a ideia de "direito = privilégio" existe. Na república velha os direitos ou privilégios eram dos grandes proprietários de terra, só os filhos deles tinham direito ao ensino superior, por exemplo. As pessoas achavam isso absolutamente normal, afinal, se eles é que tinham dinheiro, então todos os privilégios/direitos a eles.

Esse sentindo deturpado do direito se perpetuou na sociedade brasileira. E o pior, agora não é mais ligado só ao sentido de posse, hoje em dia as pessoas exigem seus direitos/privilégios baseados em questões como religião, gênero, opção sexual, raça, etc.

Por isso é tão difícil para as minorias alcançarem ganhos de direitos civis no país. Porque o brasileiro médio acha que dar direito a outras pessoas, que não seja ele, é tirar seus privilégios. Por isso é tão difícil um beijo gay na novela das 21h. Porque o brasileiro médio acha que expressão de amor é um direto/privilégio somente dos heterosexuais. Qualquer tentativa de igualar os direitos é dar privilégios aos gays, automaticamente tirando dos héteros. O brasileiro médio não consegue entender o sentido de direito universal, pra ele, direito é privilégio, e privilégio é pra poucos.

O mesmo está acontecendo com os ciclistas em São Paulo. Qualquer política pública de incentivo ao uso das bicicletas, é vista pelos motoristas (a maior representação proporcional do brasileiro médio) como uma perda de privilégios. Para esse ser de pensamento obtuso, uma ciclofaixa é um roubo do seu privilégio de andar com seu carro na rua.

Ciclofaixa na Av. Paulista. créditos: Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas
Por isso é tão difícil aprovar uma lei que regulamente a adoção de crianças por casais homossexuais, ou mesmo regulamentação de uniões homoafetivas. Porque pro brasileiro médio, família é um privilégio de poucos. Quem for diferente dele, não tem direito, afinal, direito é privilégio, e privilégio é pra poucos.

O mais preocupante de tudo isso é que nesse cenário, pouco adiantam as políticas públicas, elas sempre vão ser rejeitadas, porque, infelizmente, além de resistente, o brasileiro médio é numeroso.

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