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Recusar a estética da IA é um ato de resistência

 


Nas últimas décadas, o design passou por uma transformação importante.

A partir das críticas pós-modernas ao funcionalismo rígido do design moderno, ampliamos nossa compreensão sobre o que pode ser considerado design e sobre quais imaginários merecem representação.

Esse movimento permitiu que manifestações visuais antes marginalizadas passassem a ocupar espaço de destaque. O design vernacular, o design étnico, o design periférico e inúmeras outras expressões culturais deixaram de ser vistos como desvios da norma para serem reconhecidos como formas legítimas de produção estética.

Foi um ganho enorme.

Não apenas para o design, mas para a representação cultural de diferentes povos e territórios.

Nas últimas décadas, vimos crescer a valorização do regional, do local e do pertencimento. O design passou a dialogar com identidades específicas, tornando-se também um instrumento de afirmação cultural e política.

Mas a popularização das IAs generativas trouxe uma nova questão para esse debate.

Embora impressionantes do ponto de vista tecnológico, as IAs são treinadas a partir de enormes bases de dados compostas por imagens, textos e referências produzidas ao longo da história recente da internet. E a internet está longe de ser um espaço neutro.

Como consequência, os sistemas de IA tendem a reproduzir padrões visuais dominantes. Muitas vezes, reforçam referências eurocêntricas, padrões globais de beleza e visões de mundo hegemônicas.

O resultado é que frequentemente vemos a repetição de problemas já conhecidos:

  • estereótipos culturais;
  • representações exotificadas de povos periféricos;
  • apagamento de particularidades locais;
  • versões idealizadas e colonizadas da Amazônia, do Brasil e do Sul Global.

A IA não inventa esses vieses.

Ela os amplifica.

E é justamente por isso que a discussão sobre IA no design não pode ser reduzida à produtividade ou à eficiência.

Existe uma camada estética e política que precisa ser considerada.

Durante décadas, o design lutou para ampliar seu repertório visual e incluir narrativas historicamente excluídas. A valorização do vernacular, do popular e do regional não aconteceu por acaso. Foi resultado de disputas simbólicas importantes dentro da própria cultura visual.

Quando aceitamos sem questionamento as imagens produzidas por sistemas treinados em padrões globais, corremos o risco de enfraquecer parte dessas conquistas.

A solução, no entanto, não está em rejeitar a tecnologia.

A IA é uma ferramenta poderosa e provavelmente continuará ocupando espaço no fluxo de trabalho dos designers.

A questão central é outra.

O designer continua sendo responsável pelas escolhas visuais, culturais e simbólicas que faz.

Cabe a ele questionar referências, corrigir vieses, ampliar repertórios e tensionar os limites da própria ferramenta.

A resistência não está em recusar a IA.

A resistência está em recusar que ela determine sozinha a estética do nosso tempo.

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